"Somos uma maneira do Cosmos conhecer a si mesmo" (Carl Sagan)

"Somos uma maneira do Cosmos conhecer a si mesmo" (Carl Sagan)

domingo, 15 de outubro de 2017

Educação - Parte 2 (O Mestre e o Discípulo)


Nesse nosso dia-a-dia corrido, há a dificuldade de se manter um blog funcionando semanalmente. Comecei postando 4 semanas seguidas em 2016 e depois sumi para retornar apenas esta semana. Curiosamente a última postagem de 2016 foi a postagem sobre Educação no Dia dos Mestres do ano passado. E aqui estou eu mais uma vez para falar sobre Educação no Dia dos Mestres desse ano. Ano passado comentei sobre "o aluno de hoje", mostrando que, em minha concepção, e com base em dados estatísticos (cuja fonte não consegui encontrar de novo), o aluno de hoje é o mesmo de sempre. A diferença é que ele está dentro das salas de aula e antes não estava. Hoje nós temos de lidar com essas dificuldades. Como também mencionei na postagem anterior, não há um dia em que eu não pense em alternativas para o problema atual da educação. E por "problema", vamos considerar o fato de haver um grande número de alunos que não acompanha mais o que lhes é ensinado. Há um grande desinteresse e, por consequência, indisciplina nas salas de aula. Existem vários fatores que atrapalham o aprendizado desses alunos, mas não conseguirei abordar todos nessa segunda postagem. Queria focar naquele que é considerado o problema primordial na educação dos dias de hoje: a indisciplina. 

Antes disso, entretanto, vamos entender o que seria a almejada disciplina. Etimologicamente falando, "disciplina" vem da raiz latina "discípulo" (Estrela, 1992, p.17). Outra possibilidade de interpretação (Garcia, 2006, p.70) é a de que sua origem está na palavra discípulus (composta do prefixo dis, e do verbo capere), o que podemos interpretar como "um indivíduo que se apropria de algo que lhe está sendo mostrado ou indicado". Daí o sentido de “discípulo” como "aquele que aprende". Ainda uma outra possibilidade é da palavra ser derivada do verbo latino disco, o qual pode ser traduzido como "aprender" ou "tornar-se familiarizado". Desse termo que se forma a palavra "didática", por exemplo, e é dele que vem o sentindo da palavra discípulo como "seguir" ou "acompanhar". (Essas informações foram extraídas do artigo "Reflexões Sobre Indisciplina: Construindo um Conceito Pedagógico", publicada pela PUCPR. Se tiver interesse em ler o artigo na íntegra, clique aqui). Enfim... não é meu objetivo ficar trabalhando o conceito e uma análise muito profunda do que vem a ser disciplina. A questão é que, independente da origem da palavra, todas elas levam à relação entre aluno e mestre, à formação de um discípulo, de um seguidor. Nesse sentido, não há como dissociar a aprendizagem da disciplina. A disciplina é um fator primordial no processo de ensino-aprendizagem. Sem ela, não há como o indivíduo aprender.

Agora que sabemos que disciplina é fundamental e a falta dela - a indisciplina - o maior obstáculo ao trabalho de um professor, vamos entender o que leva a essa indisciplina. Segundo o Zen-Budismo, a relação mestre-discípulo é uma escolha. Um artigo publicado no site Sobre Budismo (que pode ser lido na íntegra aqui), diz que "três características definem o discípulo: silente, obediente e não resistente". Curiosamente são as 3 características que nos faltam hoje em muitos alunos. Eles são falantes e barulhentos na maior parte do tempo, são desobedientes (não querem seguir as regras) e são resistentes àquilo que os mestres querem ensinar. Mas por que isso ocorre? Ainda embasado no artigo acima, o discípulo precisa se sentir conectado com o mestre. É preciso, antes de tudo, se sentir bem na presença daquele mestre, perceber que o mestre fala diretamente com seu coração. E o problema é esse: não há a tal conexão, não há um bem-estar, o mestre não fala diretamente com o coração do aluno. E por que tal conexão não existe? Há inúmeros fatores que poderiam justificar e eu teria de fazer uma nova postagem só pra explicar as suas origens. Mas em síntese, podemos citar a falta de infraestrutura social e familiar da qual vêm a grande maioria dos alunos. E não me refiro somente à criança carente que mora numa comunidade e assiste tiroteios diários na porta de sua casa. Me refiro também à criança de classe média cujos pais trabalham tanto que não tem tempo a dedicar aos seus próprios filhos, suprindo sua ausência com bens materiais e não afetivos. Essas crianças chegam à escola já com inúmeros problemas pessoais não resolvidos. Muitas das vezes a escola se torna um local de escapismo e de interação social, o momento no qual finalmente conseguem se ver longe de todos os problemas que as cercam. E se nesse momento, o professor não conseguir de alguma forma atrair a sua atenção... já era! É vencido por uma série de outros fatores concorrentes muito mais atrativos, como a conversa sobre o fim de semana, o smartphone, uma revista em quadrinhos, etc. Parece uma tarefa impossível vencer esse tipo de concorrência, não é mesmo? 

O mundo atual está cheio de atrações muito mais interessantes do que uma sala de aula, isso é um fato. Se você quer entender o aluno, basta colocar-se na posição dele. Imagine que você tem de assistir a uma palestra chata do seu ambiente de trabalho. Imagine que seu smartphone está vibrando com mensagens divertidíssimas de algum grupo de WhatsApp que você participa. E imagine que duas pessoas ao seu lado estão discutindo os lances do último jogo do seu time do coração ou cenas de um filme que você viu no cinema e adorou. Consegue entender o aluno? A maioria não resiste. Poucos é que teriam a disciplina necessária para se manterem concentrados e focados no palestrante. E isso, somente se estiverem conectados com o assunto, entendendo a relevância do assunto para o seu trabalho. Se você em algum momento perceber que todo o blábláblá que está sendo dito não fará diferença alguma no seu cotidiano, você facilmente cederá à dispersão. É o caso dos personagens Daniel San e Senhor Miyagi, do filme Karatê Kid de 1984 (imagem de capa deste artigo). Senhor Miyagi tenta ensinar Karatê a Daniel através de técnicas sutis, que não parecem em nada com Karatê, como lixar o seu assoalho, encerar seus carros e pintar suas cercas. Por mais ávido que Daniel estivesse a aprender Karatê, a falta de entendimento sobre o que estava sendo passado e seu objetivo o levou à uma explosão contra seu Mestre, pois achou que estava sendo usado como mão-de-obra e não um discípulo. A cena em que a lição é finalmente entendida pode ser vista aqui. Além disso, se você não se conectar ao que está sendo dito, também cederá à dispersão. Imagine-se numa palestra cujas palavras proferidas pelo palestrante você mal consegue compreender, ou porque ele tem uma péssima dicção ou porque está num idioma diferente. Consegue manter sua atenção focada nesse caso? Então imagine um aluno que apresenta uma enorme defasagem sobre o que está sendo dito em sua frente. Por mais esforçado que seja, se ele não consegue entender o que está sendo dito, se a conexão não surge, a dispersão vence. Eu mesmo já passei por esse tipo de situação algumas vezes. Sou professor de Biologia, mas dou aulas interdisciplinares de vez em quando. Certa vez fui dar uma aula interdisciplinar entre Biologia e Matemática. Quando meu colega de trabalho começou a trabalhar os conceitos matemáticos envolvidos numa questão de vestibular, me senti como esse aluno. Eu tentava me conectar à aula, mas eram conceitos que há muitos anos não via. Uma enorme dificuldade de compreensão se apossou de mim até que em determinado momento desisti e fiquei esperando ele acabar de falar para poder voltar à minha Biologia. Imagine agora um aluno que passa por isso diariamente? Percebem o nível do problema? Se você não consegue entender algo, você perde o interesse. Se você perde o interesse, a dispersão ocorre. Se a dispersão ocorre, há uma boa probabilidade da indisciplina surgir. Sacou?

E como trazemos essa disciplina de volta então? Infelizmente não tenho essa resposta. Seria muita pretensão da minha parte achar que posso montar um guia nesse sentido. Mais uma vez é preciso deixar claro que meu objetivo com esse artigo é apenas expor algumas de minhas ideias na esperança de que elas sirvam de ajuda a outros colegas de profissão que também se questionam sobre as mesmas condições de trabalho. Tudo o que posso fazer nesse momento é enumerar algumas situações que fui notando nesses 15 anos de magistério, além de informações provenientes de leitura e palestras assistidas. Nesse sentido, percebo que a maioria dos profissionais da educação acaba apelando para o "controle aversivo", ou seja, acabam caindo no autoritarismo. E é preciso ter em mente que ser uma autoridade não significa ser autoritário. "Autoridade (do termo latino auctoritate) é um sinônimo de poder. É a base de qualquer tipo de organização hieraquizada, sobretudo no sistema político. É uma espécie de poder continuado no tempo, estabilizado, podendo ser caracterizado como institucionalizado ou não, em que os subordinados prestam obediência ao indivíduo ou à instituição detentores da autoridade" (Wikipédia). Ser uma autoridade, portanto, é ser obedecido e respeitado por aqueles que estão numa escala hierárquica abaixo da sua. Acho que quanto a isso, ninguém discorda. A discordância surge no momento em que um indivíduo acha que respeitar é sinônimo de temer.  Muitos profissionais da educação acabam apelando para o medo, pois acreditam que o aluno que tem medo dele é um aluno que o respeita. Se há uma coisa que aprendi nesses 15 anos de trabalho e estudo é que isso é um grande equívoco. Para compreender o que quero dizer, imaginemos um exemplo cotidiano. Imaginemos que há um cruzamento entre duas ruas onde ocorrem muitos acidentes. Para diminuir a colisão entre os automóveis, alguém coloca uma placa escrita "pare". Pode ser que alguns a obedeçam, mas muitos continuarão avançando e colidindo. Uma autoridade coloca então um sinal de trânsito. Pode ser que a maioria pare no sinal vermelho, mas alguns ainda avançarão e causarão acidentes. A prefeitura manda instalar radares de avanço e maioria para, mas alguns ainda vão usar estratégias para camuflar as placas de seus automóveis, dobrar as placas das motocicletas, etc., de forma a não serem identificados. Percebe-se que a imposição de uma regra, pura e simplesmente, não soluciona o problema. É preciso nesse caso algum tipo de transformação na mente do indivíduo para que ele compreenda a importância de se respeitar aquela parada. Muitas vezes como a educação não funciona, apelamos ao autoritarismo. A prefeitura indica então um guarda de trânsito ao local. A coisa parece funcionar. Enquanto aquele guarda está ali, ninguém avança, mas é só o guarda sair do local que as pessoas voltam a infringir as regras. Isso significa que as pessoas não fazem isso em respeito à regra, mas apenas por medo, ou seja, não houve uma real transformação do indivíduo. O indivíduo não mudou sua postura, não aprendeu de fato. Se tivesse de fato aprendido, não haveria nem mesmo a necessidade de algum tipo de sinalização no local. Trazendo agora a situação para uma sala de aula, um professor autoritário consegue fazer seus alunos ficarem em silêncio enquanto ele discursa, mas não significa que eles estejam de fato aprendendo. Na maioria das vezes é justamente o contrário: estão apenas esperando o professor acabar de falar (seja lá o que ele estiver falando) para então voltar às atividades que julgam pertinentes. Faz sentido isso?

Outra questão que vejo é o fato de alguns professores confundirem rigidez com grosseria. Um professor rígido faz com que as normas sejam seguidas à risca. Ele pode chamar a atenção do seu aluno e fazer as regras serem cumpridas com um sorriso no rosto. Ele pode fazer a justiça prevalecer, mas com grande carinho pelo seu educando. Mais uma vez, a confusão feita entre respeito e medo é o que leva alguns profissionais a apelarem pra grosseria com seus alunos. E a grosseria só tem o efeito oposto: distancia o aluno, rompe-se a tal conexão entre mestre e discípulo. Por isso professores que impõem medo em sala de aula são os mais criticados e "zoados" por seus alunos na sua ausência. Já um professor que conquista seus alunos com carinho e atenção, que sabe impor as regras com justiça e educação, costuma ser defendido mesmo fora da sala de aula. Ele é de fato uma autoridade respeitada, não um autoritário temido. Entendem? Concordam?

Uma última questão que gostaria de abordar são as defasagens culturais e conceituais que os alunos carregam. tais defasagens fazem com que haja uma extrema dificuldade na manutenção da concentração desses alunos, levando-os à famigerada indisciplina. Nesse caso, como proceder? O ideal seria identificar todas essas defasagens conceituais, registrando-as e solucionando-as uma por uma. Se isso já seria muito difícil a um profissional da educação com 1 aluno, imagine com 40 deles dentro de uma sala de aula e em diferentes níveis de defasagem? Talvez uma mudança no tipo de cobrança funcionaria (e pra falar de método avaliativo, levaria uma outra enorme postagem). Acho que uma forma de simplificar seria dizer que se "o objetivo da educação é que o aluno aprenda", talvez uma flexibilização na cobrança seja necessário. Aprender pode ser visto como "subir um degrau" e não necessariamente como "absorver tudo". Se o aluno subiu de nível, ele aprendeu. Talvez não tudo o que era desejado, mas teve algum nível de avanço. Uma avaliação justa deveria valorizar esse tipo de crescimento, medindo as competências adquiridas pelo educando, e não as suas incompetências, como o sistema educacional acaba fazendo. Se eu julgo um indivíduo por tudo o que ele não é capaz de fazer, eu o desestimulo. E com o desestímulo, muitos desiste. Surge então novamente a indisciplina. Em alguns casos, dadas as dificuldades encontradas fora da sala de aula, um aluno talvez precise de algum tipo de assistência para conseguir alcançar seus objetivos. Mas muitos confundem atitudes assistencialistas com paternalistas, no sentido de "ser um pai que mima seu filho, livrando-o de todos os obstáculos à sua frente". Esse segundo caso é totalmente oposto ao propósito da educação. A educação visa tornar o indivíduo autônomo e não dependente. Portanto, o assistencialismo nesse caso é a ideia de dar a "assistência" necessária a este indivíduo necessitado, de forma que ele possa alcançar os objetivos educacionais. Nesse sentido, o assistencialismo é uma ferramenta útil no processo de ensino-aprendizagem de muitos educandos. Agora... se os programas que o estado oferece são na prática assistencialistas ou paternalistas, deixo a cada um de vocês julgar. A discussão sobre esses projetos passa pelos matizes ideológicos que são causa de discórdia e motivo da polarização nacional atual. Deixemos essa questão para discussões futuras.

Concluindo e sintetizando a questão: um discípulo só segue o mestre se quiser. E esse discípulo só vai querer seguir um mestre no qual ele acredita e tem afinidade. Muitas vezes o discípulo até quer seguir determinado mestre, mas tem dificuldade e precisa de algum tipo de ajuda ou assistência. E se nenhuma dessas premissas for atendida, o discípulo deixa de segui-lo e e surge então o ato da indisciplina. Para solucionar essa indisciplina, precisamos solucionar essas questões. Não é algo fácil, não depende de um só indivíduo. A solução exige um somatório de fatores, desde mudanças no âmbito individual até uma reforma no sistema educacional. Mas podemos contribuir para esse todo em nosso dia-a-dia no momento em que tratamos esse aluno com respeito, como um ser humano, agindo com empatia o suficiente para entender as suas dificuldades, entender a sua cultura, encontrando soluções não agressivas ou autoritárias, desconstruindo nossos conceitos e pré-conceitos, e trabalhando os nossos ideais. Ao menos é o que penso. E você? O que acha?

“Não existe mau aluno, só mau professor” (Senhor Miyagi)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Existe Verdade Absoluta?


Essa pergunta é, em minha opinião, a mãe de todas as perguntas. É a pergunta cuja resposta deveria guiar todo o nosso esforço como humanidade. Vou tentar explicar o porquê...

Há alguns anos atrás, discutindo num grupo de debates via e-mail, essa ideia me veio à cabeça. Estávamos trocando ideias acerca dos mistérios sobre a origem do universo. É óbvio que vários pontos de vista foram explicitados. É claro que houve discórdia. Temos diferentes pontos de vistas religiosos, criacionistas, científicos, pseudocientíficos, místicos e metafísicos. Temos milhões e milhões de perguntas, mas não temos nenhuma resposta. Eu poderia abordar o tema em todos esses aspectos, especialmente do ponto de vista filosófico do que vem a ser "verdade" e o que seria a "verdade absoluta" e a "verdade relativa". Mas não é meu propósito com esse texto. Quero ir mais direto ao ponto e às minhas conclusões (as minhas verdades relativas? rsrs)

Para começar, vou utilizar o mesmo exemplo que utilizei naquela época. Imaginemos que um crime acabou de ocorrer: um assassinato. Um cadáver jaz no chão, mas ninguém viu o agressor, muito menos como se deu a morte da vítima. Peritos são acionados e as pistas são coletadas no local. Um perito diz que, a partir das pistas coletadas, o assassinato ocorreu de uma forma "A". Outro perito, embasando-se em diferentes evidências, diz que o assassinato se deu de uma forma "B". Temos então dois pontos de vista diferentes acerca de um mesmo crime, devido a uma coleta diferencial de dados. E ainda que exatamente os mesmos dados tenham sido coletados na cena do crime, existe a possibilidade de que duas interpretações diferentes surjam deles. E então? Quem tem a razão? Como saber qual é a verdade acerca do crime? Bem... eu obviamente não tenho a resposta. E talvez ninguém a tenha! Em muitos casos cotidianos como esse, a verdade é sempre relativa, parcial, dependente de dados limitados e interpretações pessoais, de paradigmas individuais. Por esse motivo, muitos alegam que não exista uma verdade absoluta. Que para tudo na vida há uma "verdade relativa" e, justamente por isso não devemos nunca brigar uns com os outros (cada um tem a sua própria verdade). Entretanto, esse tipo de pensamento não soluciona problema algum. O questionamento permanece insolúvel e as discórdias sempre existirão. Pode ser que muitos não se importem com isso... mas eu me importo! No exemplo acima do assassinato, como estamos tratando de algo concreto, material, fica mais fácil de entendermos a questão. Independente de quem está correto (o Perito A ou o Perito B), o fato é que um assassinato ocorreu e ele ocorreu de alguma forma. Alguém pode dizer que isso não é importante, que a pessoa continuará morta e ninguém poderá fazer nada a respeito disso. É verdade! Alguém pode alegar que, uma vez o criminoso tenha sido capturado e condenado, que a verdade acerca da morte não importa. Isso é outra verdade! Mas para aqueles que buscam o conhecimento, o entendimento acerca do mundo, a essência das coisas, tais respostas serão sempre insatisfatórias. E isso, também é verdade!

Se você que está lendo esse texto pensa como eu, você é uma pessoa que se inquieta diante de uma resposta insolúvel. A busca pelo conhecimento, pela chamada "verdade absoluta" é algo que movimenta a sua vida. Então, nesse sentido, num debate sobre a "origem do universo" como o exemplo que abriu esse artigo, embora não faça a mínima diferença prática no seu cotidiano se o universo foi criado por um fenômeno físico, uma divindade ou seres extraplanares, a pergunta te movimenta. Você sabe que, independente de existirem inúmeras verdades relativas (devido aos paradigmas pessoais de cada um), existe uma única verdade absoluta ainda não encontrada. Se vamos encontrá-la algum dia? Não temos como responder e talvez nunca consigamos. Mas o que te move é a pergunta e não a resposta em si. É o gosto pela busca, pela exploração no mundo do conhecimento humano. O fato de saber que a verdade está lá em algum lugar desafiando a inteligência humana é o suficiente para você. E como você sabe que essa verdade existe? Porque assim como o indivíduo do exemplo anterior não poderia ter sido assassinado de duas maneiras diferentes, o Universo (UNI = UM) não poderia ter sido criado de duas maneiras diferentes.  A única explicação que podemos utilizar para contradizer essa "verdade" seria se ao invés de um UNIverso, nós tenhamos um MULTIverso com realidades alternativas. Então, nesse caso, pode ser que um mesmo indivíduo tenha sido assassinado de uma maneira A num Universo A e de uma maneira B, num universo B. Da mesma forma é possível que o Universo A tenha sido criado de uma maneira A, enquanto o Universo B de uma maneira B. Mas se você parar para pensar, em ambos os casos, você se encontra nesse momento em um desses Universos paralelos contemplando um assassinato ou tentando entender a sua origem. E mesmo que existam múltiplas versões dos fatos dentro do Multiverso, você está numa dessas versões. E para essa versão do Universo sempre existirá uma verdade absoluta. Faz sentido essa afirmativa para vocês?

Enfim... eu poderia discorrer muito mais sobre o assunto, mas perderia o meu propósito com esse texto. Sintetizando a ideia: para todo fato, fenômeno ou assunto, há diferentes verdades relativas baseadas nas experiências e paradigmas de cada indivíduo, entretanto, sempre haverá uma verdade absoluta dentro do universo em que você se encontra. Como o diagrama no início dessa página demonstra, todos temos nossas crenças pessoais (nossas verdades relativas). Pode ser que essas crenças não tenham nada a ver com a realidade (área azul) e pode ser que a realidade não seja contemplada em nenhuma de nossas crenças pessoais (área vermelha). Mas quando nossas crenças coincidem com a realidade (área marrom), temos as crenças justificadas. E é dentro dessa área que se encontra o verdadeiro conhecimento, a busca a qual julgo que todos nós deveríamos fazer. Acredito que o avanço da humanidade (tanto no âmbito científico, quanto espiritual) se deve à descoberta contínua dessa área marrom. E o nosso trabalho de estudo e pesquisa visa fazer com que essa área marrom incida cada vez mais sobre a área vermelha, livrando-nos das falsas crenças e permitindo que encontremos a paz espiritual e harmonia entre os indivíduos.

Essa é a grande busca!
Esse costuma ser o meu propósito de vida!
Seria o seu também?
Se sim... junte-se a nós, nessa jornada! 😉

"Somos uma maneira do Cosmos conhecer a si mesmo" (Carl Sagan)

sábado, 15 de outubro de 2016

Educação - Parte 1 (O Aluno de Hoje)


Nesse dia 15 de Outubro, dia do Mestre, gostaria de fazer uma postagem que já venho pensando há algum tempo e acho que o momento é propício. Trabalho com educação há 14 anos e acho que já tenho pelo menos alguma bagagem pra tirar uma grande lição disso tudo. Antes de começarmos a lecionar, nós professores acreditamos que vastos conhecimento de nossos conteúdos programáticos nos tornarão excelentes profissionais. Entretanto, ao chegarmos a uma sala de aula, a realidade se mostra completamente diferente do esperado. Problemas disciplinares acabam consumindo 90% de nosso tempo e energia. Isso sem citar alunos que apresentam dificuldades e transtornos os mais diversos possíveis. Aquela sala de aula idealizada, na qual os alunos estão todo enfileirados e em silêncio para absorver tudo aquilo que você falar ali na frente, não existe. Talvez nunca tenha existido (deixo essa polêmica pra daqui a pouco). Diante das dificuldades, a grande maioria dos colegas acaba desistindo. Alguns abandonam e mudam de profissão, outros se acomodam onde estão, passando o resto da vida infelizes e reclamando dos seus problemas todo santo dia, sem fazer algo para de fato mudar sua realidade. Poucos conseguem vencer os obstáculos e fazer um trabalho que seja significativo para seus educandos. Eu sempre procurei fazer parte desse último grupo. Não há um dia sequer ao longo desses 14 anos de trabalho que eu não pense em como fazer diferente, em como conquistar a atenção do meu aluno, como vencer os desafios da sala de aula... Isso não me faz melhor do que ninguém, e meu objetivo com esse texto não é exaltar minhas qualidades, longe disso. Mas é que preciso contextualizar essa questão para o entendimento do que vem a seguir...

Ao longo desses anos, buscando respostas, encontrei alguns indícios do que pode estar ocorrendo e como podemos solucionar tais problemas. Sei que pode parecer pretensão da minha parte dizer isso, visto que inúmeros estudiosos no mundo todo tentam resolver esse problema e ninguém encontrou uma fórmula. Mas ao mesmo tempo acredito que todo mundo tem algo a acrescentar nessa nossa busca por uma resposta. E é nesse sentido que estou escrevendo este texto, na esperança de que algumas dessas ideias sirvam a outros educadores nas mesmas condições. Por último, gostaria de deixar claro que estou me embasando em estudos que li, palestras de especialistas que assisti, experimentos realizados em sala de aula, observações realizadas em sala de aula, etc. Tentei ao longo desses anos sistematizar as ideias com algum embasamento, para não cair num mero "achismo". Inclusive, é por esse motivo que estou postando nesse blog... porque esse é o propósito: entender o pensamento científico e aplicá-lo em tudo no nosso cotidiano, evitando cair em falácias, crendices e coisas do tipo. Mas ao mesmo tempo sem esquecer a tal da "espiritualidade" (citada nesta postagem), sem a qual acredito não adiantar avançar mais tecnologicamente. A ideia principal desse texto é tentar passar um pouco disso tudo, dessa humanidade, dessa esperança no ser humano, na educação, na transformação da sociedade. É possível! É preciso acreditar!

Enfim... depois dessa introdução gigantesca (como disse, era preciso contextualizar tudo), vamos à análise da questão. Em primeiro lugar, vamos desmistificar a questão do "o aluno de hoje é pior do que o de ontem". Existe um erro que cometemos sempre no cotidiano que é associar nossa percepção de uma dada situação à realidade como um todo. Vou criar um exemplo simples. Imaginemos que você mora em uma cidade que chovia de maneira mediana ao longo dos anos e nos últimos anos tem chovido demais. Supondo que as pessoas comecem a argumentar: "Tem chovido muito no Brasil atualmente..." A pessoa está extrapolando a observação local dela para uma nação. A afirmativa pode ser verdadeira ou não. Ela depende de dados no âmbito nacional para fazer essa afirmação com segurança. Acho que esse exemplo é fácil de entender e todo mundo há de concordar. Imaginemos uma outra situação, agora na área da saúde. Alguém diz, por exemplo, "Antigamente as pessoas não tinham tanto câncer assim..." Pode ser que seja apenas uma sensação gerada pelo aumento da informação. Antigamente os casos não eram notificados. Hoje, com a melhora na medicina diagnóstica e a divulgação de informações, temos a sensação de que houve um aumento de casos. A afirmativa, novamente, pode ser verdadeira ou falsa, dependemos de dados para fazer uma afirmação precisa. Por esse motivo, quando dizemos "o aluno de hoje é pior do que o de ontem", em qual dado estamos nos embasando? Eu diria que na maioria das vezes estamos fazendo essa afirmação embasada em nossa observação diária, nossa percepção. É claro que essa percepção é compartilhada por TODOS os educadores no âmbito nacional (e muitas vezes internacional). Mas não quer dizer que a afirmação de que "o aluno de hoje é pior do que o de ontem" seja verdadeira, pode ser apenas uma má interpretação pela falta de dados...

Esse tipo de pensamento me veio à cabeça há vários anos atrás, num congresso de educadores realizado pela Rede Pitágoras de Ensino. Uma ex-secretária de educação de São Paulo (não recordo o nome) apresentou inúmeros dados estatísticos mostrando as mudanças da rede educacional de SP ao longo das décadas. A palestra foi chata e entediante para muitos. A grande maioria dos educadores, nesse momento, se comportou exatamente como os alunos que criticam. A palestra estava "chata", diziam. E a palestrante deveria ser mais "divertida" ou apresentar os dados de forma mais "atrativa", argumentavam. Concordo! É sempre possível fazer isso. Mas isso não tornou a palestra menos importante para mim. Como um "bom aluno" (sempre fui o CDF da turma... rsrs) me forcei a prestar a atenção e a entender os dados que ela estava apresentando. Bom... posso hoje não me lembrar com clareza desses dados, mas a mensagem principal que ela quis passar ficou bem clara em minha mente. Nas décadas anteriores (se não me engano, da década de 70 para trás), a quantidade de alunos em sala de aula era menor. Uma grande parcela da população não tinha acesso à educação. Filhos de trabalhadores do campo e dos grandes centros urbanos, os mais pobres, os menos favorecidos, etc. Com a construção de novas escolas e as políticas públicas que permitiram o acesso dessas pessoas, hoje, poucas crianças não estão na escola. Então o que mudou? O acesso desse público!

Antigamente, tínhamos uma educação mais elitizada. Só chegavam à escola aqueles que tinham boas condições de estudar. A grande massa que temos hoje estava fora das escolas. E quando estes chegavam, muitos desistiam e abandonavam na metade do curso. Inclusive, conversando com os mais velhos, não é difícil encontrar pessoas que abandonaram os estudos no final do Fundamental I, ou algumas vezes do Fundamental II. Muitos nem completaram um ciclo de estudo desses. Então eu acredito que o que ocorria era um processo de "seleção natural". Estipulava-se uma meta a qual todos os alunos, sem exceção, deveriam alcançar. Aplicava-se medidas disciplinares (muitas discutíveis) e avaliações rígidas (também discutíveis). Aqueles que sobreviviam ao processo, que se enquadravam no sistema de normas vigente, e que conseguiam atingir boas notas dentro desse padrão de avaliação, eram os selecionados para ocupar os melhores empregos na sociedade. Quem não resistia a esse processo, era eliminado no meio do caminho e ocupava posições inferiores. Então, nesse sentido, a sensação que se tinha, era que o aluno de ontem era mais educado e mais aplicado... quando na realidade estávamos lidando apenas com esse aluno. Os demais não estavam na escola ou fracassavam ao longo do caminho. Não era de fato um processo de educação, pois não havia a transformação do cidadão. Apenas aplicávamos métodos para selecionar os melhores dentro da população. Será que faz sentido isso que estou dizendo? A hipótese procede?

A dificuldade que temos hoje, portanto, é decorrente da inclusão de todos esses alunos que antigamente ficavam de fora. Com a universalização do ensino, o aluno que tem dificuldade, o aluno que não consegue parar quieto no lugar, o aluno que não traz boa educação de casa, o aluno que tem problemas em casa, o aluno que tem problemas psicológicos, o aluno que praticamente não tinha condição de estar ali... ali está! E o método de ensinar, disciplinar, avaliar... não mudou. É engraçado qua quando comparamos a vários outros ramos da sociedade, percebemos que todos eles evoluíram e se adaptaram a esse novo tipo de população. O cinema, a TV, a comunicação, as relações sociais, a tecnologia, a forma de interagir e de encarar o mundo... tudo mudou! O mercado acompanhou a mudança e, por isso, continua vendendo. A educação parou ali. E não estou falando de uma realidade apenas brasileira não. Se formos buscar com educadores do mundo todo, como vemos muitas vezes em Congressos Internacionais de Educação, o problema é sistêmico, é global. Portanto, é preciso repensar a educação como um todo. Alguns países como Coreia do Sul e Finlândia  largaram na frente nessa busca. É claro que são culturas diferentes, situações sócio-político-econômicas diferentes. Trata-se apenas de exemplos de países que já estão no caminho, na busca por uma educação diferente para esse novo milênio. Aqui no Brasil temos muitos educadores que também estão diariamente nessa busca. O que é preciso vencer, ao meu ver, é o preconceito.

Esse preconceito se manifesta de diversas formas. Manifesta-se através do professor que acha que seu aluno é burro ou incapaz de aprender. Manifesta-se através de sistemas educacionais, técnicas e métodos, que tratam alunos diferentes como se fossem iguais. Manifesta-se através de governos que acreditam que educação de qualidade é exclusividade das elites. Manifesta-se principalmente com relação aos pesquisadores que dedicaram suas vidas a estudar os processos de ensino-aprendizagem. Não é incomum você encontrar profissionais da área de educação que abominam qualquer tipo de estudo feito na sua própria área. Segundo esses profissionais, apenas quem está dentro da sala de aula tem propriedade para falar de educação. Lembram do exemplo que dei da percepção parcial extrapolada para o todo? Pois é... acontece direto! Dependemos desses estudos, desses dados e, principalmente das discussões geradas para podermos refletir criticamente acerca dos problemas encontrados e buscarmos juntos as soluções. Ninguém tem a solução pronta! Mas todos juntos podemos chegar a algum lugar e, quem sabe, encontrá-la. Vencer todos esses preconceitos é necessário, é o primeiro passo. Em seguida, é buscarmos alternativas. É não desistir jamais da luta, do tentar fazer diferente. Eu sempre digo que, o dia em que eu não acreditar mais no que estou fazendo, eu peço demissão e vou buscar outro emprego. Não consigo ficar no mesmo lugar, fazendo algo que não acredito, sendo infeliz, apenas esperando pela aposentadoria. Isso não é vida. E é justamente por isso que vemos tantos colegas em situações deploráveis de saúde. Estão infligindo danos a si próprios e, consequentemente, aos seus alunos (falarei sobre isso em outra postagem).

Finalizando... o que era para ser uma única postagem para o dia dos professores ficou tão grande que acabei de resolver que a tornarei numa "série de postagens" relativas à educação. Esse primeiro tópico diz respeito à mudança no perfil do aluno. E a conclusão a que chego é: não mudaram. Alunos sempre foram alunos e apresentam esse perfil em qualquer local do mundo. A diferença é que, hoje, temos que lidar com todos os perfis de aluno e não apenas selecionar os bons. Sendo assim, considerando os alunos como a "matéria-prima" do professor, podemos dizer que hoje não podemos trabalhar só com a melhor matéria-prima. É necessário aprendermos a pegar a matéria-prima que temos no mercado (o aluno que já chega com "n" dificuldades e problemas) e fazer com ela o melhor "produto" possível para a sociedade. É essa a minha visão e espero que compartilhem dela. Quanto mais pessoas acreditarem que é possível, mais poder de transformação social teremos, no Brasil e no Mundo!

"Se você acha que não somos capazes de mudar o mundo, isso significa apenas que você não é um dos que farão isso" (Jacque Fresco)

domingo, 25 de setembro de 2016

Por que Agnosticismo?


Uma outra explicação que julgo necessária aqui no blog antes de começarmos as discussões, é o porque do uso da frase "uma visão agnóstica do Universo" lá próximo do cabeçalho, então...
Vamos lá!

O Universo que nos cerca pode ser visto de diversas maneiras. Uma pessoa teísta ou religiosa num sentido geral, tende a acreditar que a criação e a força motriz de nosso universo é resultado da ação de alguma divindade. Um ateísta tende a acreditar que tudo no Universo pode ser explicado através da matéria e as leis da física. Quem estaria certo nessa discussão?

Quando eu era criança, costumava filosofar sobre a origem do Universo (sim, sempre gostei desses grandes enigmas). Cresci dentro de uma concepção Cristã e cheguei a ter aulas de religião na época, na escola. Quando muito novo tinha pavor do tal do "inferno" para o qual poderíamos acabar parando se não obedecêssemos certas regras. Um pouco mais velho, ainda na infância, li um livro que falava sobre "todas as religiões do mundo". Fiquei intrigado tentando entender quem estava certo nessa história toda de religião, pois queria seguir as regras corretas, não queria errar. Uma delas, que me chamou muito a atenção na época, e cujos preceitos admiro até hoje, foi o Hinduísmo. Entretanto, o que mais me chamou a atenção na época, e me causou certo temor, foi o fato de que os Hindus consideram as vacas como animais sagrados e o consumo de sua carne um pecado gravíssimo. Lembro bem que o texto dizia que "aquele que comesse carne da vaca passaria tantos anos no inferno quanto fossem os pelos do animal". Não é preciso dizer que uma criança que acredita nisso e que tinha comido carne a vida inteira até ali surtaria, né? rsrs Depois de muito racionalizar, e após terminar de ler o resto do livro, percebi que não tinha jeito... De uma maneira ou de outra eu estaria no inferno para alguma das religiões descritas. Então com o tempo fui assimilando a questão e abstraí desse temor infundado.

Os anos se passaram e, com a educação formal, fui aprendendo o quanto que religiões foram historicamente responsáveis pela manipulação de povos em nome de objetivos escusos. Religiões mataram muitos ao longo da história da humanidade, inclusive aqueles que tentaram mostrar através da ciência que seus conceitos estavam errados. E nessa mesma época já estava adquirindo o gosto pela ciência e descoberta que carrego até hoje, tendo me tornado, inclusive, um cientista e professor. A ciência desmascarava muitos mitos que os religiosos teimavam em não aceitar. Então uma visão mais voltada ao ateísmo começou a surgir em mim. Porém, nessas reflexões filosóficas sobre a origem do Universo que sempre tive, uma questão me veio à mente e me fez parar por aí... Mesmo que pudéssemos explicar a origem de tudo através da Teoria do Big Bang, sempre haveria uma pergunta inicial insolúvel. De onde veio a energia que gerou a matéria que gerou o Universo? Como isso aconteceu? Quem deu início à tudo? Mesmo que eu fosse respondendo cada uma dessas questões, viria uma nova pergunta: "mas de onde veio isso?" E mesmo que um religioso utilizasse esse conceito como base pra argumentar que uma divindade criou tudo, a pergunta permaneceria a mesma... Se eu digo "deus criou o Universo"... eu posso fazer a pergunta "E quem criou deus?" ou "De onde ele veio?". É um ponto onde até mesmo a religião falha... não existe como explicar a origem da origem! A gente simplesmente define um ponto e diz: "esta é a origem", ignorando qualquer fato que anteceda esse fenômeno. Acaba sendo uma aceitação...

Dentro desse sentido, já na adolescência, elaborei na minha cabeça que o fenômeno da existência é um mistério insondável. Talvez seja algo que transcenda a capacidade humana de entender. É possível que nunca tenhamos uma resposta a essas perguntas. Então, se o mistério da origem do Universo é algo que não podemos compreender, seria pretensão demais optar por uma vertente de pensamento sem ter as provas necessárias. Não posso afirmar que foi um "deus" que criou o Universo, mas não tenho também como provar que não foi (até mesmo porque se trata de uma hipótese não falseável, falaremos disso mais adiante). E foi nesse momento topei com a visão agnóstica de mundo. Me pareceu (e parece ainda hoje) a melhor forma de encarar essas questões. Passei a não afirmar, nem refutar certos conceitos. Todas as vertentes passaram a ser válidas. Passei a encarar cada informação nova como uma possibilidade. Costumo brincar, dizendo que as guardo em minha "caixinha de ideias". Informações, mesmo as mais absurdas, são mantidas ali... no cantinho da minha memória para que eu saiba que existe essa possibilidade, ainda não devidamente explicada. Só considero como verdade aquilo cujas provas são irrefutáveis. E mesmo assim, ciente de que as "verdades" não são imutáveis.

Há quem diga que existem várias verdades possíveis. Eu discordo dessa afirmação. Na minha concepção, a verdade é uma só! Nós é que formulamos versões alternativas na ausência de evidências. Imaginemos que um crime ocorreu numa grande cidade. Um detetive irá coletar o maior número de evidências que o ajudarão a solucionar o caso. Dependendo das pistas encontradas, ele afirma que o crime ocorreu da forma "A". Um segundo investigador, pode reunir outros tipos de evidências e dizer que o crime ocorreu da maneira "B". Pode ser que um deles esteja certo. Pode ser que nenhum dos dois esteja certo. Mas o crime ocorreu e isso é um fato. E mesmo que existam "n" vertentes para explicá-lo, ele ocorreu de uma única forma. Essa é a "verdade absoluta", mesmo que nunca a encontremos. No âmbito da ciência e dos estudos sobre o Universo, acredito que o mesmo possa ocorrer. Podemos elaborar "n" vertentes de pensamento que o explique, desde vertentes religiosas até vertentes científicas, mas pode ser que nenhum de nós tenha encontrado a verdade absoluta. Temos então no momento "verdades relativas", embasadas nas evidências que conseguimos coletar e na capacidade de nossos sentidos de experimentar o universo ao nosso redor. Qualquer coisa que fuja a isso é insondável (ao menos no momento).

Enfim... essa é a maneira pela qual investigo a nossa realidade. Uma investigação que considera todas as vertentes de pensamento como "possíveis", mas trabalhando sempre dentro daquilo que as evidências nos mostram como mais "prováveis". Trata-se de um estudo que não nega nada prontamente, mas ao mesmo tempo não aceita nada prontamente. O ceticismo é uma ferramenta fundamental, porém, não podemos usá-lo de maneira rígida, inflexível (também falaremos disso mais adiante). Nesse sentido, como diria o filósofo Descartes "Duvido de tudo! Só não duvido de minha dúvida!". Essa é a filosofia do blog. Isso é o que eu quis passar com "uma visão agnóstica do Universo". E assim continuamos nossa viagem rumo ao "caminho infinito" do Universo...

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Por Que Espiritualidade?

Para evitar o mal entendimento da nova proposta, acredito que essa postagem se faz necessária. O blog continua abordando o Universo de um ponto de vista científico. Entretanto, a abordagem filosófica que sempre teve espaço, estará mais voltada a essa questão da espiritualidade humana. E entendam... Espiritualidade, Espiritualismo e Espiritismo são coisas bem diferentes. Vamos entendê-las!

Espiritismo:
O Espiritismo é uma doutrina religiosa codificada pelo francês Allan Kardec e, por isso, muitas vezes é chamada de Kardecismo. Trata da relação entre os espíritos e seres humanos. Segundo afirmam os espíritas, o chamado "plano espiritual" está em constante contato com o nosso "plano material", numa tentativa de guiar os passos da humanidade rumo a um mundo melhor. Apesar de seus seguidores na maioria das vezes dizerem que o kardecismo se trata de uma ciência, a doutrina não segue a rigorosidade metódica da ciência e apresenta hipóteses não falseáveis, ou seja, hipóteses as quais não se podem provar erradas. Acabamos então caindo no âmbito da e, por isso, mesmo que se utilizem certos conceitos científicos e parte da metodologia científica, não podemos considerá-lo como uma ciência verdadeira. O Espiritismo é, no máximo, uma Pseudociência.

Espiritualismo:
O Espiritualismo, por sua vez, é uma vertente filosófica e/ou religiosa que acredita na existência de espíritos e/ou alma independentes da matéria. É um pensamento contrário ao Materialismo, o qual só admite a existência da matéria.  Nesse sentido, todo espírita é um espiritualista, embora nem todo espiritualista seja um espírita, caso não siga a doutrina kardecista. 

Espiritualidade:
Por fim, Espiritualidade é uma busca por um significado maior para a vida e para a própria existência, a procura de uma conexão entre o indivíduo e o todo. Nesse sentido, a espiritualidade não está diretamente relacionada à religião. Inclusive, muitos ateus consideram-se pessoas espiritualizadas (os astrônomos Carl Sagan e Neil deGrasse Tyson, e o físico brasileiro Marcelo Gleiser, são bons exemplos). Espiritualidade é algo que transcende o intelecto e, por isso, muitos não conseguem defini-la, apenas experimentá-la.

A escolha da espiritualidade como contraparte da ciência nesse blog se deve então a esse motivo: o reconhecimento de que nossa realidade é parte de um universo maior e, até o momento, insondável. Entretanto, sem esquecer de que a ciência, apesar de limitada, ainda é a ferramenta mais segura que dispomos para compreender esse nosso universo e seu equilíbrio.


"Somos feito de Poeira de Estrelas" (Carl Sagan 1934-1996)



sexta-feira, 26 de agosto de 2016

De Volta às Origens!

Esta postagem é apenas para avisar àqueles que costumavam seguir o blog que estamos passando por mudanças novamente. O blog já funciona, se não me engano desde 2003, quando resolvi fazer postagens sobre ciências, fazendo associações à Filosofia Oriental, uma vez que era praticante de Kung Fu e curto muito as filosofias Budista e Taoísta. O blog foi deletado em 2005 e migrou para dentro da rede social Multiply na época, onde ficou durante 2 anos, quando em 2007 veio para cá e funcionou de maneira intermitente até 2012, com hiatos enormes que às vezes duravam anos. De início comecei a postar notícias interessantes na área científica e ambiental, de forma bastante formal e imparcial, servindo como informativo aos meus alunos. Nos últimos anos, entretanto, tentei fazer uma mudança radical na forma de postar e comecei a incluir um tom de humor e relacionar a assuntos considerados "Nerds", os quais também curto. Como resultado disso, o blog perdeu a sua identidade, a sua característica inicial e acabei deixando de postar novidades desde 2012...

A vida segue e o fluxo de mudanças continua em nossa jornada infinita rumo ao cosmos (uma hora explico o que quis dizer...). A gente aprende, amadurece, melhora nossa condição como ser humano nessa existência. Nesse caminho, muitas ideias vão se sedimentando na cabeça, muito conhecimento novo é adquirido e precisa ser compartilhado (também explico isso posteriormente). Enfim... com a mente fervilhando de ideias, retorno mais uma vez ao meu antigo blog, sendo que desta vez de volta às origens! Pretendo não só fazer as mesmas análises científicas de sempre, como também trabalhar questões da espiritualidade humana (e por espiritualidade, não entenda religiosidade... farei um post explicando essa diferença também!). Hoje percebo que a humanidade está mais avançada cientificamente e tecnologicamente do que espiritualmente. E esse será o centro de muitas de nossas discussões aqui a partir de agora. O blog continua sendo um blog de ciências. Ceticismo, Empirismo, Racionalismo e Método Científico continuam valendo. A diferença é que abriremos espaço para especulações e discussões filosóficas, uma verdadeira forma agnóstica de tratar a Realidade e o Universo que nos cerca.

Espero que curtam as mudanças às quais essa "espiral da evolução" nos traz. Estou deletando todas as postagens anteriores. Considerem esse um novo começo, uma nova jornada! E como diria Neil deGrasse Tyson (capa do blog) na série Cosmos mais recente (2013): "Come with me!"