Semana passada falamos sobre um princípio filosófico chamado "Princípio da Mediocridade". Esse princípio muito utilizado em astrobiologia pode também ser utilizado na argumentação. Isso significa que, ao iniciar um debate, você deve pressupor que todos os envolvidos sabem tanto ou mais quanto você, ou seja, o seu conhecimento é comum. É o ato de nunca subestimar os interlocutores, permitindo que seu próprio aprendizado seja potencializado. É exatamente o oposto do tema de hoje, o chamado Efeito Dunning-Kruger, tão recorrente nas discussões em redes sociais. Quer entender o que é esse efeito e evitá-lo sempre que possível? Leia este artigo...
Pra começar, tal efeito foi batizado em homenagem aos dois pesquisadores que o descreveram: Justin Kruger e David Dunning, da Universidade de Cornell, EUA. Ganharam por seu estudo um Prêmio IgNobel (uma paródia do Nobel), prêmio dado às descobertas científicas mais estranhas do ano, muitas das vezes irrelevantes, mas outras vezes não tanto, como este caso em questão. Em linhas gerais, trata do fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre determinado assunto acreditam saber mais do que especialistas, ou seja, uma superioridade ilusória que gera atitudes arrogantes e desinformação, em vez de esclarecimento e aprendizagem. Esse tipo de postura leva os indivíduos a tomarem decisões erradas e a incapacidade de compreender seus próprios erros. Em contrapartida, os indivíduos mais capacitados e com maior conhecimento sobre determinados assuntos, tendem a ser cada vez mais cautelosos e ter baixa confiança no que dizem, isto porque tomam ciência da quantidade de informação que ainda ignoram. Como disse o grande filósofo Sócrates: "Tudo o que sei, é que nada sei". Um ignorante, ao ouvir a mensagem de Sócrates, teria a sensação de que o filósofo estaria admitindo sua incompetência, quando na verdade ele demonstrava a sabedoria daquele que compreende a vastidão do conhecimento humano e o quanto é pequeno diante dela, ou seja, era uma atitude de humildade. Os indivíduos mais capacitados, muitas vezes acabam subestimando suas próprias habilidades e podem até mesmo sofrer daquilo que é chamado de Síndrome do Impostor, na qual não importa o quão habilidoso seja, sempre acha que os outros sabem mais que ele e, portanto, seria uma fraude, um impostor.
(Ignorem a legenda em azul. Foi o melhor gráfico que consegui encontrar)
O gráfico acima expressa de maneira clara que, quanto mais uma pessoa ignora um assunto, maior a confiança que ela tem, ao passo que, conforme a pessoa vai aprendendo e desenvolvendo sua habilidade, ela tem uma perda progressiva na confiança, resultado do autoconhecimento e da ciência de sua ignorância. A partir de determinado ponto, com o acúmulo de experiência, essa confiança volta a subir até o "platô da sabedoria". Mas notem que um indivíduo sábio, ainda assim, é de longe menos confiante do que o ignorante. Isto porque ele tem conhecimento das suas limitações e sabe que, por mais conhecimento que tenha, sempre há a possibilidade de estar equivocado. As pessoas incompetentes normalmente falham em reconhecer sua própria falta de habilidade ou de reconhecer as habilidades genuínas dos outros. Admitir erros não é para qualquer um! Sábio é aquele que assume não compreender a totalidade de um assunto e se predispõe a ouvir, mesmo que seja uma pessoa incompetente. Dunning, inclusive, chegou a dizer que "se você é
incompetente, você não consegue saber que é incompetente (...) [A]s
habilidades necessárias para fornecer uma resposta correta são
exatamente as habilidades que você precisa ter para ser capaz de
reconhecer o que é uma resposta correta." Ou seja... se você não tem habilidade para avaliar uma proposição correta, você nunca perceberá que suas proposições estão incorretas. É uma espécie de falha na formação lógica do indivíduo. Enfim... sintetizando... As bases educacionais de um indivíduo são fundamentais para que ele aprenda a diagnosticar suas próprias deficiências e, sempre que possível, corrigi-las. Por mais que o indivíduo sempre possa aprender e gerar novas conexões neuronais (tema para um post futuro), ele só conseguirá a partir do momento que assim desejar. É impossível ensinar algo àquele que não está disposto a aprender, que se acha completo, dono do saber. Outro grande filósofo, Bertrand Russel, foi bem mais agressivo em suas colocações. E é com ele que fechamos esta postagem:
Hoje vamos discutir a possibilidade da existência de vida fora da Terra através de conceitos da Astrobiologia. Se existe vida em outros planetas, ela é rara ou abundante? É disso que tratam os conceitos da "Terra Rara" e o "Princípio da Mediocridade". Vamos entender um pouco mais do assunto para embasar nossas discussões?
Em Astrobiologia (a ciência que estuda a possibilidade de vida fora da Terra), a Hipótese da Terra Rara diz que a conjunção de eventos e circunstâncias que levaram ao surgimento da vida complexa em nosso planeta é um fenômeno que requereria combinações tão específicas de características geológicas e astrofísicas que a existência de vida por aí seria algo improvável. Mas de que combinação de eventos e circunstâncias estamos falando? Para responder a essa questão, precisamos primeiro entender o conceito de Zona Habitável. Zona Habitável é região de um Sistema Planetário onde a vida pode ser criada e mantida. Zona Habitável Galáctica é o mesmo conceito aplicável a uma Galáxia. Começando pela Zona Habitável Galáctica, percebemos que é impossível existir vida em regiões muito próximas ao seu centro, onde na maioria das vezes se encontram buracos negros supermassivos (cuja gravidade mantém os sistemas planetários girando ao seu redor). Regiões de supernovas (explosões ou mortes de estrelas) também não sustentam a vida. Locais de intensa produção de radiação ou onde ocorrem os (ainda) misteriosos fenômenos como as erupções de raios gama (explosões de radiações gama que ocorrem em certos locais do universo e não se sabe ao certo ainda o motivo) também impossibilitam a existência de vida. Por último, entre os bilhões e bilhões de estrelas em uma galáxia, há a necessidade de que haja estrelas com alto nível de metalicidade (capacidade de gerar elementos químicos metálicos, necessários à geração da vida). Aplicando-se esses conceitos à nossa Galáxia temos uma Zona Habitável de apenas 10 KiloParsecs (de um total de 420 KiloParsecs de diâmetro da Via Láctea), algo próximo de 2,5% de nossa galáxia.
Via Láctea (nossa Galáxia). Observe que todo o Sistema Solar (inclusive a Terra) se encontra naquele pequeno ponto que está assinalado como "Sun" (Sol)
Quando pensamos em termos de sistema planetário, a Zona Habitável corresponde à região ao redor de uma estrela onde o nível de radiação emitido permite a existência de água em estado líquido (algo que se acredita ser essencial à existência de vida). Muito próximo da estrela a água pode ferver e muito longe ela congela. Outros fatores que podem interferir são o tamanho do planeta (gravidade muito alta ou muito baixa pode atrapalhar), o fato de ter ou não satélites ao redor (influenciando a dinâmica desse planeta), o tipo de estrutura rochosa e não gasosa, a existência de tectônica de placas, presença de um campo magnético (que protege o planeta contra a radiações), o tipo de química da litosfera e atmosfera do planeta, eventos como glaciações ou queda de meteoros, etc. São tantas variáveis necessárias à existência do fenômeno da vida que, para os defensores dessa hipótese, ela deve ser quase inexistente no universo. E estamos falando de vida simples. Se falarmos de vida complexa, a dificuldade é ainda maior. No caso da vida inteligente é extremamente rara. E no caso de civilizações alienígenas seria praticamente impossível. Por esses motivos, o físico italiano Enrico Fermi propôs aquele que é chamado pelos astrobiólogos de Paradoxo de Fermi. O paradoxo se refere ao fato de que, apesar das altas probabilidades de existência de civilizações extraterrestres calculadas por especialistas, não há evidência delas. O Projeto SETI (Search for Extra-Terrestrial Inteligence - Busca por Inteligência Extra-Terrestre), inclusive, ficou ativo durante vários anos e nenhum sinal de vida inteligente, nenhuma comunicação por ondas eletromagnéticas foi encontrada.
Programa SETI
Por outro lado, alguns especialistas seguem o conceito da filosofia da ciência chamado de Princípio da Mediocridade. Segundo esse conceito, não há nada de especial com o ser humano ou com a vida na Terra, ou seja, a vida deve ser um fenômeno bastante comum, dada as dimensões do Universo. Segundo esse princípio, se você retirar um item de um conjunto maior de itens, a probabilidade de que ele venha da categoria mais numerosa é muito mais alta do que a probabilidade dele vir de uma categoria menos numerosa. Exemplo: se um ser alienígena chegasse à Terra e escolhesse um vegetal ao acaso, é mais provável que esse vegetal fosse uma angiosperma (planta com flor) do que uma briófita (musgo). É uma forma de pensar que parte sempre do pressuposto que o fenômeno é comum, antes de acreditar que ele é algo especial ou único. Pesquisadores famosos como Carl Sagan e Frank Drake são adeptos dessa filosofia. Frank Drake, inclusive, criou aquela que é chamada Equação de Drake, a qual calcula a probabilidade de existência de vida simples, complexa, inteligente, civilizações e civilizações com capacidade de comunicação. Segundo essa equação, a vida inteligente capaz de se comunicar é muito mais comum do que parece. Só aqui na Via Láctea deveríamos ter umas 2,5 civilizações como essa.
Uma citação do próprio Carl Sagan ilustra
a questão abordada. Segundo Sagan, "Só existem duas possibilidades: ou
existem milhares de planetas onde a vida é possível, ou estamos sozinhos
no Universo. Ambas as alternativas são extremamente assustadoras". Seja qual for o caso, a Hipótese da Terra Rara ou o Princípio da Mediocridade, há uma infinidade de cálculos matemáticos e evidências empíricas que sustentam as afirmações. Aqui neste blog acreditamos no princípio da mediocridade. Até mesmo pela postura agnóstica de investigação, devemos dar crédito a várias vertentes de pensamento e, nesse sentido, apesar de todos os conceitos e cálculos já feitos, eles levam em consideração a existência de vida dentro dos padrões terrestres, dentro do conceito humano de vida. Nenhuma das hipóteses mencionadas leva em consideração a possibilidade de vida independente de água ou carbono, vida imaterial ou incorpórea, vida extra-dimensional, matéria escura, etc. Em todos esses casos, a vida seria possível fora dos parâmetros de Zona Habitável citados neste artigo. É por esses motivos que preferimos manter a mente aberta e admitir que a vida seja possível em outras condições. Por fim, citando Sagan mais uma vez, "a ausência de evidência não é necessariamente evidência da ausência". Ou como diria Fox Mulder, personagem da clássica série Arquivo-X , "A verdade está lá fora..."
Pesquisadores do Wyss Institute for Biologically Inspired Engineering (Instituto de Engenharia Biologicamente Inspirada) da Universidade de Harvard, EUA, desenvolve desde 2010 modelos de órgãos em miniatura, como por exemplo pulmões, fígado, rins, coração, medula óssea e córnea, dentro de chips feitos de polímeros plásticos. Tais modelos podem se tornar dentro de pouco tempo uma tecnologia dominante nas pesquisas biomédicas. Saiba mais...
Um "organ-on-a-chip" (OC), como é chamado, trata-se de um um chip de plástico com várias entradas onde são realizadas culturas de células em meio microfluídico, simulando a atividade e as respostas fisiológicas de órgãos completos ou até mesmo sistemas de órgãos. Na prática, funciona como se fosse um órgão artificial, do tamanho de um "pendrive" (como na imagem de topo). As câmaras dentro do chip são organizadas de forma a simular a estrutura do órgão ou tecido em questão. É possível, portanto, se fazer testes de drogas ou fármacos nesses chips, analisando as possíveis respostas do organismo, o grau de toxicidade da substância em questão e seus efeitos colaterais, entre outros parâmetros. A resposta do organismo a infecções também pode ser observada ao se inserir vírus ou bactérias nesse meio de cultura celular.
Modelo de pulmão-em-um-chip. Percebam que há um espaço para o fluxo e ar em contato com a corrente sanguínea, separada por uma fina membrana de células que simulam os alvéolos pulmonares
Neste outro modelo, temos a simulação de uma barreira hemato-cerebral, ou seja, neurônios ligados a tecidos que representam a circulação sanguínea
Hoje em dia, tais estudos como os citados acima, são realizados em modelos animais, os quais são ainda bastante imprecisos. Por mais que o resultado de um teste realizado com animais sirva como base para a medicina, efeitos adversos inesperados ainda ocorrem. O uso de órgãos em chips permite, portanto, a aplicação de substâncias de interesse diretamente em tecidos humanos, os quais funcionariam em condições bastante próximas das reais, reduzindo os riscos e esses efeitos inesperados. Chips
criados com células-tronco de determinado paciente poderiam dar ainda
uma resposta individualizada, ou seja, uma resposta específica para o paciente doador das células, reduzindo os possíveis efeitos colaterais.
A realização de experimentos em chips também poderá solucionar os problemas éticos envolvendo o uso de animais como cobaias. Hoje, grupos de ativistas em prol dos direitos animais e sociedades veganas no mundo todo lutam pela libertação animal do sofrimento gerado por esses experimentos. É uma luta justa e eu a apoio, entretanto, há a necessidade do desenvolvimento de métodos substitutivos para que as pesquisas biomédicas não sejam interrompidas por completo. O uso de órgãos em chips talvez venha a se tornar uma das principais ferramentas nesse sentido. Outra questão interessante é que o uso de vários órgãos em chips interligados podem gerar aquilo que já está sendo chamado de "human-on-a-chip" (humano-em-um-chip), ou seja, um chip no qual todos os sistemas do corpo humano podem ser simulados ao mesmo tempo, como visto abaixo:
O uso de um chip multi-órgão (humano no chip) é importante para os estudos toxicológicos pelo fato de que certas substâncias que tem efeito positivo em determinado órgão, podem causar efeitos colaterais em outros órgãos. Um exemplo: certas substâncias que melhoram a entrada de ar atmosférico nos pulmões também aceleram os batimentos cardíacos. Se o pesquisador está analisando apenas o efeito de uma determinada droga sobre o sistema respiratório num chip, ele não poderia observar os seus efeitos no sistema cardiovascular. Já com o uso de um chip multi-órgão, tais efeitos seriam observáveis. Enfim... o conceito de órgãos em chips é de fato revolucionário e, possivelmente, serão a porta de entrada para uma nova era da pesquisa biomédica, onde os estudos serão cada vez mais precisos, com resultados individuais e sem agredir os direitos animais.
Seasteading é um conceito que une a palavra sea (mar) com homesteading (que é o ato de se apropriar de uma nova terra ou recurso sem dono). Ou seja... seasteding é a criação de moradias ou até mesmo cidades inteiras em alto-mar, fora do mar territorial reivindicados pelas nações. O que parece um conceito absurdo, pode se tornar uma solução para uma população em crescimento exponencial, além de permitir que surjam nações livres da geopolítica dominante atual, algo similar ao projeto Asgardia, citado anteriormente neste blog.
De início, a maioria dos seasteads eram em cima de navios de cruzeiro, verdadeiras cidades flutuantes ou ilhas flutuantes. Mas até então, nenhuma delas ganhou reconhecimento como nação soberana. É o caso de Sealand, uma micronação criada em uma base naval perto de Sufolk, Inglaterra, e a organização Women on Waves, que é uma organização sem fins lucrativos que defende os direitos humanos das mulheres. Essa organização é montada sobre um navio que viaja fora das 200 milhas náuticas (370km) do mar territorial dos países, ou seja, em águas internacionais. A organização atraca em países que autorizam, levando contraceptivos, informações, workshops, etc. às mulheres, incluindo a realização de abortos seguros fora das águas territoriais dos países, onde suas legislações não os alcançam. A Rádio Verônica, é outro exemplo: uma estação de rádio pirata em alto mar.
Sealand (à esquerda) e Women on Waves (à direita)
Em 2008 ocorreu a criação do Seasteading Institute, instituição que vem facilitando o estabelecimento de comunidades flutuantes. O objetivo da instituição é, em suas próprias palavras, "permitir a próxima geração de pioneiros testar pacificamente novas ideias de governo, de forma que os mais bem sucedidos entre eles possam inspirar mudanças em formas de governo ao redor do mundo". É um projeto bastante audacioso que levará décadas para ser concretizado. Eles pretendem realizar o projeto através do "incrementalismo", ou seja, a quebra de uma grande visão em pequenos passos fáceis de serem concretizados (novamente, algo similar ao projeto Asgardia). A estratégia atual está centrada no projeto "Floating City Project" (Projeto Cidade Flutuante), a primeira seastead que será verdadeiramente uma cidade flutuante. O projeto conta com inúmeras pesquisas científicas realizadas em 2013 e 2014, onde cálculos sobre a dinâmica das ondas, estabilidade do terreno, densidade dos materiais, fluxo das correntes marítimas, etc., foram exaustivamente analisados. Os resultados geraram um documento que você pode ler na íntegra aqui, e algumas das imagens do podem ser vistas abaixo.
Observem a construção de pequenos módulos que podem ser guinchados por navios de uma baía para outra ou em direção ao alto-mar
No esquema acima, percebemos que os pequenos módulos podem dar origem a uma espécie de "bairro" como o visto em destaque na imagem acima, parte de um projeto muito maior que será completado pouco a pouco ao longo dos anos que se seguirão
Fase 3 do projeto que está sendo executada neste momento em território da Polinésia Francesa, nação que autorizou o uso de seu território para a montagem dessa micronação flutuante
Nos dias de hoje, muito tem-se discutido acerca das políticas nacionais e internacionais. Vivemos uma época de extremismos e de diálogo dificultado por reações emocionais exacerbadas, mentiras, fake news, etc. A dificuldade de se encontrar soluções reside principalmente no fato de que não há como se testar novas formas de governo ou conceitos de sociedades. Há cidadãos insatisfeitos que vivem em governos capitalistas mas gostariam de participar de uma experiência socialista democrática, assim como cidadãos de governos socialistas autoritários que gostariam de ter experiências de livre mercado. Hoje tais tipos de experiências não são possíveis. Com a criação de cidades flutuantes autônomas, todo e qualquer tipo de experimento político ou social pode ser conduzido: renda básica universal, livre mercado total, democracia direta (ou e-democracy), tecnocracia, enfim... uma infinidade de possibilidades podem ser testadas. Outro artigo interessante sobre o assunto pode ser encontrado aqui, e várias imagens de projetos podem ser vistas logo abaixo.
Mais uma vez, como gosto de dizer, em casos de dúvidas como esse, recorro sempre ao método científico. E quando falo em método científico, me refiro à sua real aplicação, não a metodologias distorcidas que vemos aplicadas ao mundo empresarial, jurídico ou político. A ciência em sua forma mais pura precisa ser imparcial, mesmo que as pessoas não sejam. Falaremos sobre a filosofia da ciência e todas as vertentes não científicas mais adiante. Até lá! ;-)
Finalizando a nossa "Trilogia das Gerações", hoje vamos entender melhor o conceito e detalhar a mais recente: a Geração Alpha!
Em primeiro lugar, temos de entender o conceito de "coorte histórico". Um coorte é um conjunto de indivíduos nascidos em um mesmo período histórico que, por este motivo, desenvolvem comportamentos característicos, impactando de uma maneira peculiar a sociedade em que vivem. Vimos nas postagens anteriores sobre que esse conceito de coorte ou "gerações", passou a ser utilizado no século XX. Em seguida, passou-se a dar letras do alfabeto para designá-las. A Imagem no topo deste artigo mostra que os indivíduos das gerações mais antigas que ainda estão vivos hoje, já têm mais de 70 anos de idade. Os Baby Boomers possuem algo entre 50 e 70 anos de idade. Indivíduos da Geração X (a minha) possuem algo em torno de 36 a 50 anos de idade, enquanto indivíduos da Geração Y estão na casa dos 21 a 35. A maioria das crianças e adolescentes em idade escolar pertencem à Geração Z, e estão na casa dos 6 a 20 anos de idade. E, por fim, aqueles que ainda nem completaram 6 anos já são chamados de Geração Alpha. Observem a composição populacional abaixo e sua respectiva projeção para os próximos anos, segundo institutos de pesquisa:
População por Gerações (em milhões de indivíduos)
Projeção Populacional até 2040 (Percentual)
Muitas áreas do conhecimento não aceitam a existência desse conceito, mas estudos na área de sociologia e demografia, entre outros, têm demonstrado que indivíduos que nascem num mesmo período de tempo tendem a ter comportamentos similares em decorrência de sua exposição à sociedade em que vivem. Em outras palavras, são frutos de seu "Zeitgeist". Se levarmos esse raciocínio para o âmbito das neurociências, perceberemos que a existência de um coorte histórico é totalmente plausível. Falaremos mais sobre neurociências em uma futura postagem, mas por hora basta entender que o arcabouço neuronal de um indivíduo é formado a partir dos estímulos que ele recebe do seu meio. Nesse caso, indivíduos que estão sujeitos a uma exposição a tablets, smartphones e outros tipos de mídia em seus primeiros anos de vida, terão um desenvolvimento cerebral diferente daquele ocorrido em gerações anteriores. Esse exemplo, inclusive, se refere à nossa próxima geração: a Geração Alpha.
8) Geração Alpha
Compreende indivíduos nascidos de 2010 até os dias atuais. São ainda MUITO novos, mas já apresentam características em comum que podem ser enumeradas. São crianças que já nascem expostas a uma tecnologia muito mais avançada que a das gerações anteriores. Nasceram num mundo com problemas ambientais alarmantes e uma produção de informação absurdamente alta, impossível de se acompanhar. Essas crianças são extremamente curiosas e espertas, aprendendo com uma grande facilidade, pois são bombardeada de estímulos. Provavelmente serão aquelas com a melhor educação de todas as gerações até então. Além disso, deterão o maior conhecimento tecnológico da história. Um sistema educacional voltado para essas crianças deve ser um sistema com foco na autonomia, baseado em projetos para aprender por meio de situações cotidianas. Crianças criadas dessa forma, provavelmente serão mais independentes e com maior habilidade em se adaptar a mudanças, competência essencial a um mundo em constante transformação. Seu relacionamento será menos hierárquico e mais horizontal. Serão desde cedo criadoras de conteúdo (já vemos, por exemplo, vários casos de crianças youtubers). Estarão conectadas à "internet das coisas", realidade aumentada, biohackings, impressoras 3D e 4D, terão produtos e serviços personalizados e sob medida. Nesse sentido, a educação para essas crianças deve caminhar mais em direção a um ensino voltado às necessidades e interesses desses alunos, e menos para o padrão sistematizado e hierárquico de tempos atrás. Pais e educadores se tornam cada vez mais orientadores do acesso à informação que se encontra disponível na palma de suas mãos. Se por um lado o conhecimento é de mais fácil acesso, por outro, um grande desafio se apresenta na forma das competências socioemocionais. Programas específicos para esse tema vêm sendo desenvolvidos em escolas na Finlândia, Estados Unidos, Austrália e Canadá, por exemplo. A habilidade em lidar com suas próprias emoções (Inteligência Emocional), para se comunicar, a criatividade, a responsabilidade, determinação, empatia, capacidade de tomar decisões e resolver problemas são exemplos de competências necessárias para lidar com o mundo atual. Essas competências são, inclusive, contempladas na Nova Base Curricular Comum Nacional para Educação Infantil e Ensino Fundamental que entrou em vigor este ano em nosso país.
Nota Pessoal: Como dito acima, crianças que nascem nessa era atual, já estão neurologicamente adaptadas ao mundo atual. É curioso que algumas são capazes de com tablets e smartphones intuitivamente, por assimilação do que os adultos fazem. Meu filho, por exemplo, que tem dois anos e meio, percebeu que um smartphone se usa deslizando os dedos sobre a tela em ziguezague e tentou reproduzir o movimento com cerca de 1 ano e meio de idade. Ele aprendeu a usar o meio digital antes mesmo de aprender a andar! E quando aprendeu a andar, tentou clicar nos ícones do Netflix na SmarTV. Percebem como ele entendeu o que era uma tecnologia "touch" sem ninguém ensiná-lo? (mas a TV não era touch e ele ficou frustrado... rsrs). Essas crianças que crescerão nesse mundo, repleto de informação precisam aprender a triá-la. Num mundo com tanta coisa a se fazer e com tanta coisa atrativa, os ambientes educacionais e profissionais se tornarão cada vez mais lúdicos, interativos, com horários flexíveis e menos hierarquizados. Chega de teoria, é a vez da prática. Chega de padronização, é a era do mundo personalizado. Alguns especialistas, entretanto, alertam para o fato de que um ambiente hiperestimulado deve dar lugar a um ambiente mais calmo e tranquilo de vez em quando. A criança precisa desenvolver outras habilidades longe desse mundo tecnológico. Nós vimos que todas as gerações anteriores tiveram vantagens sobre as predecessoras, mas cometeram alguns erros não previstos. Talvez um dos erros que essa geração possa cometer seja exatamente esse: o de esquecer o mundo real e trocá-lo pelo virtual. Devemos lembrar que crianças precisam ser crianças e brincar como crianças. Deve existir um equilíbrio!
Observação: Existe um conceito muito utilizado hoje em dia que é o de "crianças índigo". Segundo essa crença, os índigos seriam crianças especiais nascidas no mundo atual com o objetivo de levá-lo a uma "nova era". É muito utilizado por místicos, esotéricos e espíritas. Em termos científicos, esse estudo é meramente uma pseudociência (falaremos sobre pseudociências em outra oportunidade). O objetivo deste blog é tentar explicar o universo e a sociedade dentro de uma perspectiva científica e, portanto, o conceito de crianças índigo não cabe aqui. Entretanto, estou citando-o apenas para compará-lo com a Geração Alpha que acabamos de conhecer. Há uma proximidade conceitual entre elas. E nesse sentido, a explicação para a existência de crianças inteligentes e intuitivas não seria sobrenatural, mas sim neurológica. ;-)
Dando continuidade ao assunto, hoje vamos às 3 gerações que convivem atualmente em maior quantidade, as polêmicas gerações X, Y e Z. Quem são, como agem e o que pensam?
5) Geração X
Esse termo é utilizado para designar os nascidos nas décadas de 70 ao início da década de 80, geração da qual faço parte. Somos filhos dos Baby Boomers. Nascemos como resultado daquela geração conflituosa anterior. Experimentamos as mudanças nos valores sociais iniciadas na geração anterior e, como resultado da entrada das mulheres no mercado de trabalho, e um crescimento alto nas taxas de divórcio, crescemos com uma supervisão parental MUITO menor do que nas gerações anteriores. Crescemos ligados na TV, na chamada "Geração MTV" (a antiga Music Television). Presenciamos o surgimento da cultura Grunge, do Hip-Hop, do Rock Alternativo e da explosão do cinema americano. Pegamos uma geração mais focada nos adultos e menos nas crianças, onde os valores sociais antigos (o da família onde o casal fica junto, não importando os problemas) deram lugar ao valor da autorrealização individual e parental. Pegamos também o início da "revolução sexual", onde casais mudavam com frequência. Tudo isso culminou em adultos, na década de 90 aos anos 2000, conhecidos como a "Geração Friends" (por conta do seriado de TV de mesmo nome). No mercado de trabalho, fomos considerados mais apáticos e relaxados que os anteriores. Socialmente fomos considerados cínicos, vazios, sem afeições. Mas conforme essa geração avançou, entretanto, passamos a ser vistos como uma geração autônoma e empreendedora. Acabamos ganhando uma autoconfiança e otimismo inexistente nas gerações anteriores. Tudo isso levou ao crescimento exponencial da indústria tecnológica e do entretenimento que vivemos ainda hoje. Somos vistos no meio empresarial como independentes, cheios de recursos, adaptáveis, pragmáticos, bem-resolvidos, céticos quanto às autoridades e buscando uma vida mais balanceada, entre trabalho e lazer. Crescemos na era da Globalização. O Google, a Wikipédia, o YouTube, a Amazon, são adventos resultantes dessa geração. Quanto medidos os graus de felicidade e satisfação, atingimos os mais altos patamares nos estudos. Em termos de educação dos filhos, não somos pais tão controladores quanto os Baby Boomers. Em vez disso, damos oportunidade aos nossos filhos aprenderem por conta própria através de pequenos erros, intervindo apenas em problemas maiores. Somos a geração com a maior porcentagem de pessoas engajadas em serviços voluntários e assistência social. Somos considerados também os maiores resolvedores de problemas e com a maior ética profissional. Estamos no intermediário entre os baby boomers e os millennials em vários aspectos no âmbito político, social, educacional e uso de mídias sociais.
Nota Pessoal: Essa geração não começou bem. As conquistas sociais da geração anterior foram importantes, mas a sociedade parecia ainda não estar preparada (o que não quer dizer que tais conquistas não deveriam ter sido almejadas). Entretanto, o que pareceu um erro, acabou resultando em um acerto também. A independência e autonomia dessa geração se deveu ao fato de terem sido negligenciados pelos pais (o que não significa que essa seja uma atitude correta). Percebam que, provavelmente, o mais adequado se encontra no intermediário entre os dois: os pais devem dar autonomia aos seus filhos, mas sem negligenciar a educação em problemas maiores, evitando o grande número de delinquentes juvenis que surgiram também nesse período. Talvez o índice de criminalidade crescente nos grandes centros urbanos mundiais também se deva a esse fato. Outro problema é que a Geração X começou a pensar como os Baby Boomers, acreditando serem melhores que as demais gerações, tanto anteriores, quanto posteriores.
Geração Friends - Um Trecho de um Episódio da Série
Michael Jackson - Um dos Maiores Ícones da Cultura Pop dessa Geração
6) Geração Y
Nessa geração encontramos os nascidos do final da década de 80 até a década de 90. É a geração logo após a minha. São chamados de Millenials por terem nascido no final do milênio. É a geração que cresceu junto à internet! Cresceu em meio à prosperidade econômica, ao fácil acesso aos bens materiais e acompanhou o grande avanço tecnológico. Devido aos grandes estímulos na infância, é uma geração multitarefa, capaz de realizar várias atividades ao mesmo tempo. Curiosamente, essa geração é exclusivamente urbana, visto que as mesmas mudanças não ocorreram no campo. Se na geração anterior, crescemos com a durabilidade dos produtos, a geração Y cresceu numa era de descartabilidade e das atualizações tecnológicas constantes, ou seja, em meio a uma efemeridade dos produtos. Houve com isso uma mudança no mercado de trabalho, levando o profissional a ter de se atualizar com maior frequência. Além disso, trabalhos mecânicos e braçais começaram a dar lugar a trabalhos mais ligados à criatividade e inovação. É uma geração que, com isso, nunca foi muito acostumada a grandes esforços. Além das facilidades mencionadas, muitas vezes tiveram pais (da Geração X) que tentaram compensar materialmente seus filhos pelas suas faltas afetivas. No mercado de trabalho, acabam não querendo se sujeitar a tarefas "menores" e almejam sucesso rápido e sem esforço. São imediatistas. Além da grande facilidade no uso de novas tecnologias e capacidade de adaptação às mudanças constantes, é uma geração que já nasceu num mundo globalizado. Com isso, suas formas de comunicação são bem diferentes da geração anterior. São capazes de estabelecer vínculos fortes com pessoas que estão à distância, através dos celulares e redes sociais. A troca de informação entre as pessoas e, com isso, o enriquecimento cultural das populações aumentou bastante nessa geração. A produção de conteúdo se tornou frenética e informações podem ser acessadas a qualquer hora, em qualquer lugar. O mercado se adaptou para atender essas pessoas que são ávidas por novidades, daí os conteúdos produzidos também serem bastante descartáveis. O problema disso é que, apesar de terem mais acesso à informação, só atingem a sua superficialidade (o chamado conhecimento "fast food"). Com isso, os posicionamentos políticos e ideológicos se tornaram menos embasados que os da geração anterior. O consumismo acabou tomando conta dessa geração e, aliado à descartabilidade dos produtos, gerou uma degradação ambiental sem precedentes. Também pode ser chamada de "Geração Peter Pan", pela demora que alguns tem em amadurecer, vivendo muito mais tempo com os pais do que nas gerações anteriores. Em compensação, por passarem mais tempo aprendendo, evitam bem mais os erros profissionais e de relacionamento que as gerações anteriores cometeram. Com o avanço da justiça social, os Millennials trouxeram de volta o "politicamente correto" e saíram em defesa das minorias, fato não tão bem aceito pelas gerações anteriores, chamando-os pejorativamente de "geração floco de neve" (snowflake), por "derreterem facilmente", não serem duros, resilientes, e reclamarem demais.
Nota Pessoal: As habilidades desenvolvidas pelos indivíduos dessa geração são imprescindíveis para o mundo atual. Tanto que pessoas da Geração X que não acompanharam essas mudanças têm cada vez mais dificuldades e estão ficando para trás. A produção frenética de novos conhecimentos e conteúdos é uma espécie de "rolo compressor" que esmaga essas pessoas. Entretanto, membros dessa geração precisam trabalhar melhor a paciência, combatendo a visão imediatista. Devem também combater a descartabilidade gerada, pois o meio ambiente não está aguentando mais essa pressão. Vale ressaltar que essa é uma geração considerada por muitos como uma geração
frustrada. Isso porque é uma geração extremamente qualificada e que não
encontrou oportunidades num mercado já saturado, que busca na realidade
empregados mais baratos. É uma geração que ainda valoriza a formação
acadêmica, quando profissionais de nível técnico ganham muitas vezes
mais do que eles. São pessoas que precisam investir numa visão empreendedora (tanto que 44% dessa geração tem como preferência o empreeendedorismo)
7) Geração Z
São aqueles nascidos nos inícios dos anos 2000 até mais ou menos 2015. São chamados também de iGeneration, Plurais ou Centennials. Essa geração já nasceu num mundo onde sempre existiu internet, redes sociais e smartphones. São, por isso, muitas vezes chamados de "nativos digitais". Essa geração apresenta uma curiosa mistura: alguns são filhos de millenials, mas muitos ainda são filhos da Geração X (levando-se em conta que a Geração X passou a ter filhos mais tarde. Eu, por exemplo, tive um filho em 2015 e terei outro este ano, mesmo sendo da Geração X). É uma geração que pegou a grande recessão provocada pela crise de 2008 e, por esse motivo, tendem a ser mais independentes e com desejos empresariais, pois viram seus pais sofrendo como força de trabalho. Presenciaram o encolhimento da classe média e o aumento do nível de estresse nas famílias. Os alunos dessa geração se auto-identificam como leais, compassivos, pensativos, mentes abertas, responsáveis e determinados. Entretanto, enxergam outros da mesma geração como competitivos, espontâneos, aventureiros e curiosos, características que não identificam em si próprios. Alguns autores dizem que sua competência leitora vem sendo modificada devido à familiaridade digital. Sua frequência a igrejas, curiosamente, chega a 41%, comparado com 18% dos Millenials, 21% da Geração X e 26% dos Baby Boomers. É uma geração avessa a riscos. O número de jovens que experimenta álcool caiu e os que usam cinto de segurança aumentou. As taxas de gravidez na adolescência reduziram, assim como o abuso de drogas e abandono dos estudos, comparado com os Millenials. Passam muito mais tempo na internet que as gerações anteriores e, alguns acreditam que usam o meio digital como fuga dos problemas que encontram no mundo offline. Pesquisadores em educação dizem que o uso de smartphones oferece o potencial de uma experiência de aprendizagem mais profunda e de instrução individualizada, levando a uma geração bem mais educada. Em contrapartida, estão preocupados com a dependência tecnológica e a falta de regulação desse uso. Essa geração, mesmo se irritando com alguns aspectos das redes sociais mais famosas, ainda assim participa delas como meio de socialização. Dão preferência a aplicativos e comunicadores mais rápidos e usam bastantes emojis. usam a internet como meio de desenvolver habilidades sociais aplicadas em situações da vida real, além de aprender coisas de seu próprio interesse. Adolescentes passam a maior parte do tempo online, comunicando-se com pessoas com quem interagem no dia-a-dia, enquanto as redes sociais são usadas para obter notícias globais e manter contatos. Os pais se preocupam com o uso exagerado das redes sociais e os filhos se sentem irritados com essa preocupação excessiva e controle. Um aspecto negativo é que eles são menos hábeis no contato cara-a-cara e tendem a se sentir mais solitários, ansiosos e frágeis. Eles exibem uma enorme preocupação com aquilo que os outros pensarão de suas postagens. Meninas são mais afetadas por esse fenômeno que meninos. Elas experimentam baixa autoestima e fragilidade emocional mais elevada, em boa parte devido a cyberbullying (que é mais comum agora do que foi para os Millennials). A Geração Z desenvolveu a economia sob demanda (produtos e serviços oferecidos imediatamente sob demanda). Na educação valorizam a obtenção de uma graduação na obtenção de empregos. O empreendedorismo tem se tornado comum no currículo das escolas. As novas tecnologias favorecem oportunidades de abrirem negócios mais cedo. Suas ideias podem ser "vendidas" mesmo sem sair de casa. No âmbito político, a Geração Z tende a ser mais conservadora que a anterior e mais pessimista quanto à economia. Profissionalmente, estão bem preparados para um ambiente empresarial global e procuram algo além de um emprego: buscam uma atividade profissional que ajude a mudar o mundo. São ávidos por participar ativamente da comunidade. Eles já começam nos empregos de uma maneira melhor do que da Geração Y.
Nota Pessoal: A geração Z é de fato a geração "on demand". São autodidatas e gostam de trilhar seu próprio caminho. Não gostam de hierarquias e horários inflexíveis. Não aceitam as normas de trabalho, são questionadores e pró-ativos. Por todas essas características acabam sendo muito voltados ao empreendedorismo, ao trabalho dentro de casa, à produção de seu próprio conteúdo, etc. Por terem crescido num mundo onde o terrorismo se tornou mais comum, onde a degradação ambiental atingiu patamares inconcebíveis e as crises econômicas geraram recessão e instabilidade global, acabam não sendo só motivados pelo dinheiro, mas também pela vontade de "salvar o mundo". Como a geração anterior se preparava demais e falhava no mercado de trabalho, estes já são mais objetivos, pragmáticos, realistas. São cautelosos e céticos com relação às grandes empresas. É uma geração que veio para mudar o mundo. E tomara que consigam!
Diariamente ouvimos falar sobre diferentes gerações. Frases como "essa geração é mais agitada", "a minha geração era mais sábia", "a geração dos meus pais era isso ou aquilo" e por aí vai. No meio empresarial usa-se muito os termos Geração X, Y ou Z. Na internet ouvimos falar sobre os Millennials. Mas o que são essas gerações, como foram formadas e como pensam de fato?
1) A Geração Perdida
O uso do termo "geração" para um conjunto de pessoas nascidas no mesmo período de tempo sempre existiu. Mas o uso de um termo para designar uma geração em específico parece ter surgido no final do século XIX, com a chamada "Geração Perdida", a qual corresponde às pessoas nascidas entre 1883 e 1900 e que lutaram na 1ª Guerra Mundial durante sua juventude. O termo é atribuído inicialmente por Gertrude Stein (uma escritora e poeta americana) mas foi popularizado pelo escritor Enerst Hemingway (conhecido por sua principal obra "O Velho e o Mar"). Essa geração atravessou os chamados "Loucos Anos 20" e a Crise de 1929. Por terem vivenciado todos esses problemas, tornaram-se adultos individualistas e conhecidos por quebrarem regras. Dessa geração, além dos famosos escritores Ernerst Hemingway, James Joyce e T.S. Eliot, nasceram também: Charles Chaplin, Babe Ruth, Alfred Hitchcock, Louis Armstrong, Al Capone e figuras que seriam importantes na 2ª Guerra Mundial como Mussolini, Hitler, Mao Tsé-Tung, Truman, Eisenhower, entre vários outros nomes.
Nota Pessoal: Talvez esse individualismo e o desprezo por regras tenham sido os responsáveis pela ascensão do fascismo, que culminou na 2ª Guerra Mundial. As pessoas começaram a pensar em si próprias e em seus objetivos, não importando o que teriam de fazer para alcançá-los.
Chaplin em seu clássico filme "O Grande Ditador", onde imita Adolf Hitler
Louis Armstrong e sua belíssima canção "What a Wonderful World"
2) A Geração Grandiosa
Esse termo foi cunhado pelo jornalista e escritor Tom Brokaw para designar os indivíduos nascidos já durante a grande depressão e que lutou na 2ª Guerra Mundial em sua juventude. Eles vivenciaram o surgimento de inovações tecnológicas como o rádio, o telefone e a TV, além de um grande crescimento das desigualdades (entre brancos e negros, homens e mulheres, etc.). Nasceram nessa geração, os famosos artistas Clarke Gable, Greta Garbo, Henry Fonda, Lou Costello, John Wayne, Gene Kelly, Orson Welles, Kirk Douglas, Ava Gardner, Marlon Brando, escritores como George Orwell, Ian Fleming, Joe Shuster, Bob Kane, Jack Kirby, Isaac Asimov, Stan Lee, o pintor Salvador Dali, os políticos George W. Bush, Kennedy, Nixon e Ronald Reagan, além de Walt Disney, Madre Teresa e os cantores Nat "King" Cole e Frank Sinatra, entre vários outros.
Nota Pessoal: Talvez, tendo crescido em famílias individualistas, passando as dificuldades da crise econômica, ouvindo as histórias de seus pais sobre a 1ª Guerra e enfrentando a maior de todas as guerras, essa geração tenha se preocupado muito com os seus familiares e seus similares, daí o crescimento das desigualdades no mundo. É uma geração que desconfia daqueles que são diferentes. Por isso tendem a ser conservadores, nacionalistas e, muitas vezes, racistas e xenófobos.
Frank Sinatra cantando "Garota de Ipanema" com Tom Jobim
Nat "King" Cole cantando a clássica "When I Fall in Love"
3) A Geração Silenciosa
Esse termo foi utilizado entre a Grande Depressão e a 2ª Guerra Mundial. Em idade adulta presenciaram a Guerra da Coreia, o nascimento do Rock na década de 50 e dos direitos civis na década de 60. São chamados de "silenciosos" porque eram conformados com as normas sociais e focaram mais em suas carreiras do que em ativismos. Foi um período que levou ao crescimento econômico do pós-guerra, mas que acirrou ainda mais as desigualdades sociais. Foi uma geração menor, devido ao fato de terem crescido em um período de escassez e seus pais terem tido poucos filhos. Por ter sido uma geração menor, houve melhores oportunidades de emprego, saúde e aposentadoria. Por isso também foram chamados de "The Lucky Few" (os poucos sortudos). Nessa geração nasceram Martin Luther King Jr, o atual Dalai Lama, Malcolm-X, Fidel Castro, Che Guevara, Kofi Annan, Silvio Berlusconi, Mikhail Gorbatchev, Sadam Hussein, Solobodan Milosevitc, os artistas Brigitte Bardot, John Cleese, Judy Dench, Audrey Hepburn, Sophia Loren, Shirley MacLaine, Marilyn Monroe, Jane Fonda, Elizabeth Taylor, Shirley Temple, Gen Wilder, James Dean, Robert Duvall Clint Eastwood, Morgan Freeman, Gene Hackman, Dustin Hoffman, Anthony Hopkins, Denis Hopper, James Earl Jones, Steve McQueen, Jack Nicholson, Al Pacino, Christopher Plummer, Robert Redford, Burt Reynolds, Leonard Nimoy, William Shatner, George RTakei Adam West e os músicos Little Richard, Chuck Berry, Ray Charles, B.B. King, Neil Diamond, Bob Dylan, além de importantes nomes como o do linguista Noam Chomsky e o boxeador Muhammad Ali. Nota Pessoal: Foi uma geração que cresceu num período melhor e teve mais filhos (o que refletiu na geração seguinte), mas presenciou tanta desigualdade social que deu origem aos diversos movimentos contestatórios que existem até hoje. Movimentos pela igualdade racial, feminismo, além de revoluções socialistas que culminaram na Guerra Fria são provavelmente o resultado de uma geração que cansou de ver a desigualdade brotar e resolveu tomar alguma atitude.
Chuck Berry com a clássica "Jonny Be Good", uma das músicas que inaugurou o Rock N' Roll
Little Richard e outro clássico do Rock N' Roll "Long Tall Sally"
4) A Geração "Baby Boom"
Essa geração é resultado da anterior. São pessoas nascidas na década de 50 e 60, que já pegaram o crescimento econômico e por isso tiveram muitos filhos, daí o termo "baby boom". Os baby boomers são conhecidos por rejeitar os valores tradicionais. Devido à sua infância mais segura e melhores condições de educação e saúde, são conhecidos por serem hoje pessoas privilegiadas em detrimento das gerações seguintes. Foi a geração que iniciou a onda de consumismo na qual estamos imersos ainda hoje. É uma geração que tende a se achar "especial", pois progrediram muito mais que as gerações anteriores e acreditam manter valores melhores do que as gerações posteriores. É a geração que mostra a maior quebra de paradigmas culturais entre o conservadorismo e o progressivismo de todas. Esses movimentos contestatórios começaram na época da Guerra do Vietnã e se estenderam até os dias de hoje, onde entretanto, os baby boomers se tornaram os conservadores da vez por acharem que a sua geração era a melhor de todas. Nos EUA os antigos baby boomers acabaram se tornando "Democratas" enquanto os mais recentes se tornaram "Republicanos". Eles vivenciaram culturalmente movimentos como a Beetlemania e o Festival Woodstock. Foi a primeira geração a crescer já com o advento da TV em suas casas, fator de extrema importância na cultura e educação a partir de então. Os programas infantis como Mickey Mouse, as séries de TV como Batman e Além da Imaginação contribuíram na formação desses indivíduos. Vivenciaram ainda a Guerra Fria, a crise de Mísseis em Cuba, o assassinato de Kennedy, a chegada do homem à Lua, a liberdade sexual, uso de drogas e a explosão de movimentos sociais. Políticos como Bill Clinton, George W. Bush (filho), Thereza May, Tony Blair, Al Gore, Barack Obama, Donald Trump, etc., são todos nascidos nessa geração e ainda estão em ativa hoje. Nasceram ainda nessa geração Kareem Abdul-Jabbar (jogador de basquete), Whitney Houston, Anjelica Huston, John Belushi, Jeremy Irons, Michael Jackson, Steve Jobs, Elton John, Tommy Lee Jones, Michael Jordan, John Bon Jovi, Bono Vox, Gary Kasparov, Diane Keaton, David Bowie, Stephen King, Jeff Bridges, David Letterman, Nicholas Cage, Príncipe Charles, Deepak Chopra, David Lynch, Madonna, Bill Maher, Glenn Close, Alice Cooper, David Cooperfield, Kevin Costner, Eddie Murphy, Demi Moore, Michael Moore, Olivia Newton-John, Tom Cruise, Jamie Lee Curtis, Willem Dafoe, Ted Danson, Johnny Depp, Princesa Diana, Sean Penn, Christopher Reeve, Richard Dreyfuss, Lou Ferrigno, Kurt Russel, Arnold Schwartzenegger, Sally Field, Jodie Foster, George Foreman, O.J. Simpson, Steven Spielberg, Bruce Springsteen, Sylvester Stallone, Maryl Streep, Patrick Swayze, James Taylor, Mel Gibson, Whoopi Goldberg, John Travolta, John-Claude Van Damme, Denzel Washington, Bruce Willis, Oprah Winfrey, Steve Wonder, Weird Al Yankovic, Mark Hamill, Tom Hanks, entre vários outros, ou seja, é a geração que influenciou a minha geração (a próxima) e que de certa forma nos influencia até hoje!
Nota Pessoal: Ao meu ver foi a geração que gerou a cisão político-ideológica na qual estamos imersos ainda hoje. De um lado, os primeiros baby boomers são mais progressistas e lutam por igualdade e direitos sociais. Já os baby boomers seguintes, são os arrependidos que acreditam que os valores se perderam com o tempo, portanto, são mais conservadores e tendem a pensar no progresso do indivíduo e na eficiência do Estado em que vivem (já que esse crescimento econômico foi o que lhes garantiu uma boa vida em sua geração). Talvez hoje, a polarização político-ideológica "esquerda/direita" tenha surgido dessa cisão que começou com os baby boomers. As gerações seguintes acabam sendo então cooptadas ideologicamente ou por um lado, ou pelo outro. E o resto, vocês já conhecem...
The Beatles - Ticket to Ride, uma entre inúmeras músicas famosas da banda
O inigualável festival de Woodstock
A partir daí surgiram as gerações X, Y e Z. Entretanto, como o artigo acabou ficando grande demais, resolvi dividi-lo em duas partes. As gerações seguintes serão contempladas em outra postagem.